Anglicismos, empréstimos etc.: dilemas na tradução de software livre

A tradução de software é muito mais simples que a de literatura, mas ainda apresenta dilemas aos tradutores. A informática é repleta de expressões estrangeiras mais ou menos conhecidas no Brasil, mesmo quando existe uma expressão equivalente em português. Os tradutores brasileiros de software livre volta e meia estão discutindo sobre adotar ou não uma palavra de origem inglesa, então resolvi pesquisar sobre anglicismos.

Os estrangeirismos (por exemplo, o anglicismo) são palavras de origem estrangeira mas que foram incorporadas à nossa língua, mantendo o sentido mas adotando pronúncia e ortografia próprias do português. O artigo da Wikipédia lista alguns estrangeirismos surpreendentes: “banana”, por exemplo, vem do uolofe, e “robô”, do tcheco. Muitas pessoas repudiam estrangeirismos provenientes de idiomas modernos, mas palavras recém-incorporadas do latim e do grego antigo geralmente são muito bem recebidas. Além de questões culturais, como o orgulho nacional, uma das causas é a facilidade de adaptarmos palavras do latim e do grego às ortografias e pronúncias do português, enquanto com o inglês o processo é bem mais complicado.

O decalque é um tipo interessante de estrangeirismo, em que a expressão estrangeira teve suas partes traduzidas literalmente. “Half time”, por exemplo, virou “meio tempo”, e em Portugal “goal keeper” virou “guarda-metas”.

Empréstimos, por outro lado, são palavras de outro idioma mas ainda não completamente incorporadas ao nosso. Mantém a escrita e a pronúncia originais, e não são muito difundidas. Na prática, a diferenciação entre estrangeirismos e empréstimos não é tão clara assim. O termo “mouse” foi incorporado ao português no Brasil, mas a pronúncia e a escrita originais foram mantidas. Será que isso muda? “Deficit” mantém a grafia original, mas os termos relacionados ao futebol foram adaptados à nossa língua à medida em que o Brasil ganhou destaque internacional no esporte.

É divertido observar a existência de falsos amigos, palavras cujo sentido foi alterado durante a incorporação. “Marmelada”, no Brasil, é um doce de marmelo, mas inglês a palavra “marmalade” foi adotada para um tipo de doce de laranja. Por outro lado, os Brasileiros chamam de “shopping” o que os americanos chamam de “mall”, em português “office boy” tem o significado que “messenger” tem em inglês. (A propósito, falso cognato” e “falso amigo” não são a mesma coisa.)

Existem vários motivos para adotar-se um estrangeirismo ou empréstimo. Às vezes não existe palavra adequada, ou esta é desconhecida por jornalistas, tradutores etc. Em outros casos, a palavra em português é conhecida, mas não é empregada por questões estéticas, de auto-afirmação ou esnobismo. Na informática quase sempre existem palavras adequadas em português, mas as palavras em inglês são mais difundidas pela imprensa, e passam a ser melhor compreendidas… Hoje um brasileiro não consegue imaginar uma tradução para “mouse”, mas os índios Sapucaí conseguiram arranjar uma tradução para “computador”!

A incorporação de termos estrangeiros é inerente às línguas vivas, e está relacionada a aspectos culturais e mesmo geopolíticos. Traduzir software possibilita que falantes de outros idiomas que não o inglês tenham acesso a uma série de recursos, mas também é uma forma de promover o próprio idioma. Quando um tradutor mantém um termo estrangeiro, até que ponto está contribuindo para o fortalecimento de sua cultura? Todos os artigos que encontrei sobre o assunto são descritivos, e não prescritivos. Nem mesmo os dicionários adotam os mesmos critérios. Parece que nós é que teremos que construir a resposta.

Na blogosfera:

17 respostas em “Anglicismos, empréstimos etc.: dilemas na tradução de software livre

  1. Pingback: via Rec6

  2. Leonardo,

    Puxa, achei que era só eu o preocupado com esse assunto. Há algum tempo andei recebendo mensagens super maleducadas, criticando meu uso de formas como mause, saite, internete (a tal vogal E epentética, hehe, aprendi mais uma), dráiver; ou seja, no meu saite, uso, quando possível, uma ortografia adaptada dos termos técnicos mais comuns.

    Como disse a pesquisadora Hilma no artigo dela, e disso eu já sabia, há um sem-número de palavras originárias do inglês (e de outras línguas) que tiveram sua ortografia aportuguesada, e, particularmente, não vejo razão para não fazer EU o mesmo.

    Agora, que essa questão levanta os pêlos da nuca de muita gente, ah, isso levanta! Quantos não são absolutamente contra o aportuguesamento, e uns outros tantos contra o anglicismo de maneira absoluta. Soluções à portuguesa, como rato, sítio, e outras do gênero, não imagino sendo usadas no dia-a-dia no Brasil.

    Hum… Difícil! Parabéns por levantar a questão!

  3. Oi, Leonardo

    É uma questão difícil, e não apenas um problema dos tradutores de software de código livre. Traduzi um programa comercial recentemente (comercial assim, ele não é vendido, pode ser baixado de graça, mas pertence a uma empresa que de certa forma lucra com ele, por sinal, a empresa que me emprega). Pois bem, os queridos usuários bateram o pé firme porque já usavam esse programa em inglês há cinco anos e não gostaram de ver alguns termos traduzidos. Agora o problema é que para a maioria dos outros termos eles , gostaram das soluções dadas. Ou seja, eles sugeriram que o programa fosse mantido em português, mas alguns botões chave, nos quais eu usei as traduções mais elegantes possíveis do tempo em que nem exisitia internet ainda, fossem deixados em inglês. Aí foi minha vez de bater o pé firme e resultado: a empresa, que está muito mais interessada em satisfazer o cliente do que respeitar a língua portuguesa, resolveu disponibilizar na última atualização do programa uma caixa de aviso que diz o seguinte: “Clique aqui para manter os botões em inglês”. Agora me diz, pode?

    Agora será que se o Brasil não tivesse sido colonizado da forma que foi – para servir aos interesses de outros – será que não teríamos uma atitude diferente em relação a nossa língua? Mas bem, aí já sai do assunto tradução para entrar na política.

  4. Pingback: Liga o Aiú irú rive! « talqualmente - sobre tradução

  5. Leonardo,
    Não conheço muito sobre Portugal, mas sei que lá há uma resistência grande em relação à “invasão” de outros idiomas. Talvez em razão do que a Paula reclamou acima, isso não acontece no Brasil. Aqui, há uma certa prática de conferir um status de sofisticação a certo termos estrangeiros, mantendo-os não traduzidos. Mesmo que essa prática não me agrade, é o que ocorre no Brasil, inclusive no meio da informática — como sabemos. Sempre que possível, acho legítimo traduzir e tentar vencer os velhos hábitos, mas a medida entre aquilo que já é adotado (não importando o juízo sobre como foi incorporado) e o que seria uma tradução supostamente ideal é sempre difícil de ser alcançada.
    Mas para isso que existem os canais de discussão!

  6. Entre “mause” e rato, prefiro mil vezes rato, que é algo conhecido e se relaciona diretamente ao objeto em questão, do que a aberração que é “mause”, na qual a pessoa precisa saber que veio do inglês “mouse”, e que se refere a um rato, para daí sim fazer a relação com o objeto.

    Aportuguesar a palavra, só em casos em que não existe um equivalente claro, como por exemplo, escâner. Se não fosse feito isso, diríamos o que? “Rastreador de papéis”?

  7. Pingback: Gerúndio: de Camões ao telemarketing | Leonardo Fontenelle

  8. Pingback: Andre Noel » Blog Archive » Lojas de informática venderão ratos

  9. Sinceramente eu acredito que incorporar palavras e convício estrangeiro a nossa lingua de forma preservada é uma vantagem, pois tais palavras apenas se tornam simples dialetos o que enriquece muito o nosso vocabulario fonético, observe se a palavra mouse que na sua tradução seria rato, mas que é associada a um dispositivo isso tornaria essa palavra mais um sinônimo e/ou palavra específica, quer dizer quando disser mouse o possoal vai ver é o mouse de seu computador e nunca um rato, é até mais simples de tornar as coisas mais visíveis e além que se quando descobrir que a palavra é somente um sinônimo então sabes que ela é rato no exterior.

    Um vez foi dito que brasileiros são bem mais adaptáveis a aprenderem outras linguagem além do portugues por essa razão, já que praticamente temos um vocabulário bem mais rico por causa desses dialétos, sem contar que como seria hardware em português, massadura? ou software, massamole? fica meio estranho dizer isso, prefiro dizer hardware e software, sem contar que foram os americanos que inventaram o computador assim como os russos e alemães, dessa forma usar espressões deles se tornam mais simples, assim que quem inventou os animes e mangás foram os japoneses, que usam o Haku ou Haikai.

    Em minha opnião é que nossa cultura é uma mescla de culturas que dar origem a nossa identidade, uma colcha de retalhos, onde temos tudo em nosso país e conhecimento ao nosso alcance.

    Acredito que quem investir na idéia de colcha de retalhos será bem visto aqui, pois quem conhece o sucesso, sabe que nunca se deriva da tragédia, mas do jeito brasileiro de ser, na diversão, nas idéias e no potencial de aprender qualquer coisa que lhe seja apresentada, olhe bem o inglês, nós já temos muitos dialetos dessa lingua e aprender outros é vantajoso.

    O mundo hoje é diferente do mundo de antes onde tudo era desconhecido e a comunicação era inviável, agora temos todo acesso a qualquer lugar, a comunicação hoje em dia é importante e dialetos tornam a comunicação mais proveitosa e acessível, pois tal idéia nacionalista francesa que é apresentada é muitas vezes prejudicial, atitudes como essa isolão a nação de todo o mundo, e isso hoje em dia seria se desfazer do conhecimento que pode ser obtido.

  10. Raquele, você não perguntou coisa alguma até agora. Na verdade, seu comentário está parecendo mais spam. Peço que você se explique melhor. (Atualização: excluí o comentário por supô-lo uma tentativa de testar ou dessensibilizar o mecanismo de triagem de spam.)

  11. Achei muito interessante o seu artigo. Sou um extremo defensor de aportuguesar ou usar termos corretos na escrita do português. Porém sou contra coisas como ‘saite’, por favor senhores, utilizem ‘página’ ou mesmo ‘local’ que é a tradução de ‘site’ e ‘sitio’ é espanhol e não portugues.
    Mas uma coisa que gostaria de chamar a atenção é ao próprio título desse artigo (aliás, procuro uma tradução boa pra ‘post’), o uso dá palavra ‘software’ chega a parecer irônico nesse contexto!

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