Entrevista com Djihed Afifi, parte 2

Djihed Afifi. © himself; used with permission.Dando continuidade à entrevista com Djihed Afifi, mantenedor da localização do GNOME para o árabe, ele fala sobre o Projeto Arabeyes, do qual faz parte a equipe árabe de localização do GNOME, e sobre as peculiaridades de se traduzir para o árabe.

Qual é a história do Arabeyes?

Eu não estava lá quando o Arabeyes começou. Pelo que sei, antes de 2001 havia algumas iniciativas individuais e de pequenas organizações para dar suporte ao árabe no Unix, e o projeto foi iniciado naquele ano. [O Arabeyes foi criado por] várias pessoas de todo o mundo, principalmente mas não apenas falantes do árabe. Em linhas gerais, [nosso objetivo é] dar suporte ao árabe no software livre e de código aberto. Tentamos relatar erros (“bugs”) relacionados ao árabe, traduzir projetos e desenvolver outros relacionados ao árabe.

Acho que existe um artigo na Wikipédia com mais informações. Ele foi escrito um membro da “velha guarda”.

Alguns projetos, como o GNOME, o KDE e um pouco o GNU, oferecem alguma infraestrutura a suas equipes de tradução: estatísticas, controle de versões, acompanhamento de erros etc. Até onde o Arabeyes usa suas próprias ferramentas, e até onde usa as ferramentas dos “projetos alvo”?

Nós usamos tudo o que facilitar nosso trabalho, tanto ferramentas domésticas quanto as de outros projetos🙂

Temos uma infraestrutura própria no Arabeyes, com CVS, listas de discussão e um wiki. As listas de discussão desempenham o papel usual de comunicação entre os desenvolvedores/tradutores, e algumas vezes com desenvolvedores “upstream”. Nós usamos nosso próprio CVS, de forma que as pessoas possam tenham acesso à tradução dos outros, corrigindo-as, completando-as etc. Nós usamos o wiki para discutir termos do dicionário técnico e algumas regras lingüísticas mais formais. Por fim, cada projeto tem um representante que mantém o contato com o “upstream”, geralmente sincronizando as traduções entre nosso CVS e o repositório do projeto, repassando anúncios e prazos, preenchendo e acompanhando relatórios de erros, etc.

Também usamos as ferramentas de outros projetos, no que elas nos ajudam. Por exemplo, usamos o damned-lies extensivamente para designar arquivos, avaliar as estatísticas e outras tarefas.

Como o Arabeyes lida com padrões e memória de tradução? Quais são os planos nessa área?

Para a memória de tradução, em geral as pessoas usam suas próprias ferramentas (poedit e kbabel, por exemplo). No entanto, o líder de cada equipe tem geralmente uma grande memória de tradução e a usamos para fazer o máximo de tradução aproximada (“fuzzy”) antes de entregar os arquivos aos tradutores.

O dicionário técnico é basicamente um dicionário inglês-árabe de informática. A princípio o criamos com arquivos PO, mas isso gerava vários problemas com o controle de versões e o discussão de termos, então tive a idéia de enviar os termos para o nosso Wiki. Usei alguns scripts para converter os arquivos .po para a entrada xml do Wiki. Sendo aberto, o Wiki permite que as pessoas editem enquanto consultam, discutam termos, sugiram alternativas etc. Por fim, existem alguns scripts para pegar as páginas wiki e convertê-las de volta para arquivos .po, assim como .pdf para impressão e leitura. A experiência tem sido muito recompensadora para nós.

Agora nosso trabalho está centrado no dicionário técnico, ele é realmente a base para outros projetos como, eventualmente, verificação ortográfica.

Também flertamos de vez em quando com a idéia de abrir a tradução a todos com o Pootle, e talvez o adotemos em algum momento no futuro.

Além de traduzir software livre, quais são os outros projetos do Arabeyes?

Desenvolvimento e documentação. Nós desenvolvemos alguns poucos projetos, como o ITL (Ferramentas e Bibliotecas Islâmicas) e o Siraji (OCR para o árabe, ainda engatinhando), e tentamos enviar patches incluir suporte ao árabe em projetos bem conhecidos (VIM, putty…).

Quais são os seus planos para o Arabeyes e a equipe de tradução do GNOME?

Na equipe do GNOME, estamos traduzindo intensamente as aplicações mais comuns. Por muito tempo, não tocamos em projetos grandes como o GIMP e as aplicações de escritório. Isso está mudando ultimamente graças a uma equipe de tradutores altamente motivados. Eu gostaria de ver a maioria das aplicações do GNOME traduzidas, e então talvez, mais para frente, possamos adentrar o mundo da documentação. Pessoalmente, estou passando mais tempo relatando e tentando consertar erros relacionados ao árabe e à escrita da direita para a esquerda. Ainda temos algumas arestas para aparar.

Para o Arabeyes, estamos sempre precisando de colaboradores. Temos um monte de idéias, mas sempre esbarramos na falta de recursos humanos. Gostaríamos de ver o suporte ao árabe incluso nos softwares livres mais populares. Também gostaríamos de desenvolver uma aplicação livre de OCR para o árabe, e um tradutor automático. Esse é o curto prazo; temos ainda mais planos a longo prazo.

Existe uma Edição Muçulmana do Ubuntu, assim como distribuições específicas para os árabes, com o Arabian Linux (parcialmente baseado no Kurumin Linux). Qual a sua opinião sobre distribuições especializadas assim?

Elas são iniciativas muito boas, apesar da esfera de distribuições árabes ser muito segmentada e ineficiente. Eu tenho tentado há algum tempo aproximar as pessoas para que unam seus esforços.

De acordo com a Wikipédia em inglês, o idioma árabe tem “27 sub-línguas” e é falado em vários países. Como as equipes de tradução para o árabe lidam com isso?

Dialetos, em geral, são muito informais e não são usados na educação ou na informática. Pense no seu dialeto informal típico das ruas; os do árabe são apenas ainda mais distantes da língua formal.

Se você está se referindo a localidades (“locales”), nós não lidamos com elas porque exigem muito esforço para pouco ganho, e as diferenças principais são [apenas] a moeda, o modo dos países nomear os meses, etc.

As equipes de tradução para o árabe teriam algum dia iniciado um “meta projeto” se o idioma fosse mais próximo do inglês, como é o caso do português?

Para ser honesto, não tenho certeza🙂

O árabe é um idioma muito exigente em termos de suporte nos programas. Ele é escrito da direita para a esquerda, tem um conjunto de caracteres completamente diferente, necessita de modelamento, união etc. Mas uma equipe unificada ajuda muito para idiomas que não têm muitos tradutores. Em geral, são mais ou menos sempre as mesmas pessoas a traduzir na maioria dos projetos, e o meta projeto conseguiu juntar essas pessoas e favorecer o contato e o interesse de todos.

É isso! Obrigado a Djihed pela entrevista.

Devo publicar de vez em quando outras entrevistas sobre localização de software livre, tanto no Brasil quanto no mundo. Fiquem ligados!

2 respostas em “Entrevista com Djihed Afifi, parte 2

  1. Pingback: Leonardo Fontenelle » Blog Archive » Entrevista com Djihed Afifi, da equipe árabe de tradução do GNOME

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s