Gerúndio: de Camões ao telemarketing

O uso do gerúndio pode ser tão irritante que até levou a um neologismo: gerundismo. O gerúndio faz parte da língua portuguesa, tanto culta quanto popular, mas tem colecionado opositores nas últimas décadas. O governador do Distrito Federal, por exemplo, demitiu o gerúndio; e um portal de notícias propôs um Dia Sem Gerúndio. Na verdade, o problema não é o gerúndio em si, mas sim o que ele às vezes indica: falta de compromisso.

O gerúndio é especialmente irritante quando indica futuro em andamento (vou estar enviando). Essa forma é corriqueira na língua inglesa, e por isso algumas pessoas acham que o gerúndio é uma espécie de anglicismo. Na verdade, o gerúndio sempre fez parte da língua portuguesa, e foi herdado do latim. Os Lusíadas, obra clássica da língua portuguesa, é repleta de gerúndio. Curiosamente, hoje os portugueses usam o infinitivo gerundivo (estou a escrever), enquanto os brasileiros usam a forma clássica (estou escrevendo).

Expressões como estarei escrevendo são aceitas quando realmente indicam uma ação contínua, que se estenda por todo um período (À tarde estarei escrevendo), ou quando indicam uma ação concomitante, que acontece ao mesmo tempo que outra à qual se refira o texto (Quando você chegar estarei escrevendo). O gerundismo acontece quando o gerúndio é usado no lugar do infinitivo, ou seja, quando ao invés de dizer vou providenciar a pessoa diz vou estar providenciando.

Como Vladimir Melo comentou, José Roberto Arruda (governador do DF) deveria ter demitido o gerundismo, e não o gerúndio. O gerundismo é usado de forma artificial para indicar gentileza e formalidade no discurso. Pior ainda, indica falta de compromisso por parte do locutor, seja por falta de autonomia, seja por falta de interesse. Enfim, o pior do gerundismo é o uso do gerúndio para desculpa de ineficiência, que é justamente o que o governo do Distrito Federal proibiu no decreto.

Seria bom podermos demitir a própria ineficiência…

10 respostas em “Gerúndio: de Camões ao telemarketing

  1. Pois é, Leonardo, acho que o gerundismo pode até ganhar seu lugar na nossa língua, que é viva. Mas o pior de tudo é o abuso desse “tempo” no discurso de muitas pessoas. Freqüentemente, o gerundismo toma o lugar do futuro e passa a perseverar como uma fixação em muitos falantes do português brasileiro. Na verdade, pior mesmo é perceber essa idéia fixa em muitos professores por aí. Gerúndio, ou ainda que gerundismo, sempre com moderação!

  2. Pingback: Gerúndio: de Camões ao telemarketing | Leonardo Fontenelle « 1307i: Opus Technica

  3. Eu li esse decreto. Inicialmente eu achei uma piada – por realmente ser realmente uma forma de comunicação que o telemarketing utiliza de forma muito esperta (ou preguiçosa) -, mas depois achei uma idéia interessante. Os callcenters de empresas de telefonia celular estariam “lascadas”.

    Belo! Estarei voltando aqui para ler novos posts!

    Abraços

  4. Olá, Leonardo Fontenelle, chequei aqui o seu e-mail referente ao (sr.) Antônio G.B.Nascimento.
    Como não consta assunto, e eu tbm não conheço a pessoa, eu fico sem retorno. Se você puder transmitir este retorno para ele, eu fico grato antecipadamente.
    Sem mais para momento,me envie um novo e-mail com mais detalhes.
    Saudações Mário C. Bernardino

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