Fundação GNOME discute possível censura no Planet GNOME

Em geral não gosto de expor discussões internas do GNOME, pois elas já são conduzidas de forma aberta e as pessoas realmente interessadas já costumam estar envolvidas. Dessa vez acredito que o assunto será trazido em breve para a imprensa especializada, e diz respeito aos valores que o GNOME deve defender. Richard Stallman defendeu que o Planeta GNOME não publique artigos falando bem de software proprietário, mas esses artigos são sobre projetos em que estão envolvidas pessoas que colaboram, ou colaboraram, com o GNOME, e muitos deles usam a plataforma GTK+/GNOME. Quando Richard Stallman lembrou que o Projeto GNOME é filiado ao Projeto GNU, algumas pessoas chegaram a considerar votar a (des)filiação.

Depois do Conselho Diretor da Fundação GNOME receber reclamações sobre o comportamento de certos membros da Fundação, Lucas Rocha (em nome do Conselho Diretor) enviou um e-mail à lista de discussão da Fundação GNOME levantando o assunto de o que fazer nessas situações. Discutiu-se a pertinência de punir membros que não sigam o Código de Conduta, especialmente ao usar os meios de comunicação do GNOME, como o Planeta GNOME e as listas de discussão; também se discutiu até que ponto o comportamento inadequado de alguns membros do Projeto GNOME poderia estar afastando outros. Então alguém lembrou que pessoas que não estão mais envolvidas com o Projeto GNOME ainda têm seus blogs agregados no Planeta GNOME, e foi proposto que todos os autores de blogs agregados ao Planeta GNOME recebam anualmente e-mails pedindo a confirmação do interesse de continuar agregados.

Aí entrou Richard Stallman, questionando se os ex-colaboradores do GNOME estariam divulgando software proprietário no Planeta GNOME; e Philip Van Hoof lembrou que proibir esse tipo de artigo seria quebrar o mote O Planeta GNOME é uma janela para o mundo, o trabalho e a vida dos hackers e colaboradores do GNOME. A discussão continuou com Richard Stallman defendendo que O GNOME é parte do Projeto GNU, e tem que dar suporte ao movimento do software livre. O mínimo de suporte ao movimento do software livre é evitar de ir de encontro a ele; ou seja, evitar a apresentação de software proprietário como legítimo. Nesse ponto alguns membros começaram a levantar a questão de até onde o GNOME faz questão de ser parte do projeto GNU, e cogitou-se mesmo uma votação. Agora foi criada uma enquete para saber o que as pessoas (entendo que principalmente membros da Fundação GNOME e autores de blogs agregados pelo Planeta GNOME) acham de software proprietário, de sua divulgação no Planeta GNOME, e da importância da filiação do Projeto GNOME ao Projeto GNU.

Acredito que o GNOME não tenha muito o que ganhar, mas tenha um bocado a perder com uma ruptura, mesmo que mínima, com o GNU ou a FSF. Por outro lado, os projetos já são independentes na prática, e algumas pessoas sentem que essa discussão já vem tarde.

Apesar de eu usar praticamente só software livre e/ou de código aberto, não vejo problema algum nas menções a software proprietário no Planeta GNOME. Primeiro, porque isso é importante para cumprir o objetivo do Planeta, de nos permitir conhecer melhor as pessoas que fazem o GNOME. Segundo, porque conhecer a concorrência é importante para produzir software livre de qualidade.

Espero que a questão seja resolvida de uma forma construtiva, e caso aconteça uma votação prometo levar em consideração os comentários feitos a este artigo.

4 respostas em “Fundação GNOME discute possível censura no Planet GNOME

  1. A questão da censura em Planetas não é polêmica de hoje. Eu particularmente acho que o software livre está criando um cenário de patrulha, que não corresponde ao ideal de liberdade que tanto é valorizado na comunidade. Se a censura acontecer no Planet Gnome, suspeito que o projeto perderá colaboradores. O radicalismo de não dialogar com software propietário é, na minha opinião, uma posição reacionária e que desperta antipatia no usuário final. Espero que o Gnome não adote uma política autoritária, como deseja Stallman.

  2. A princípio acho condenável qualquer forma de censura. O que precisa ser feito é melhorar o código de conduta para que todos saibam de antemão e se auto-policiem quanto ao que cabe ou não dizer em blogs e fóruns de discussão. Parece-me que o código de conduta do Ubuntu e, especialmente, o código de conduta para líderes de projetos do Ubuntu seriam um bom ponto de partida. Mas infelizmente a discussão já degringolou e não vejo nada que justifique ataques pessoais, tais como chamar alguém de “fascista.”

  3. Não vejo problemas em “divulgar” indiretamente software proprietário, assim como o Leonardo, não sou dependente deles, e julgo importante para o software livre que o software proprietário se desenvolva, a concorrência é um fator positivo para o desenvolvimento mútuo dos dois “paradigmas”.

    Me desculpem os mais afixionados, mas eu enxergo a raiz dessa discussão desnecessária de longe, seu nome é: Richard Stallman, sei que ele defende um ideal, respeito e admiro muito isso, inclusive já disse isso pessoalmente à ele. Mas não podemos crer na unanimidade e não podemos crer em extremismos. Somos livres ou não? Para o “bem” e para o “mal”, “escolha o seu caminho!”.

    Se eu pudesse/quisesse opinar nesse debate, eu diria que o GNOME é muito maior que uma ideologia ou que uma tendência de mercado, o GNOME é feito por pessoas, estas mesmas que são “acusadas” de propaganda ao adversário, são os mesmos que fizeram o GNOME ser o que é hoje! Tenho interesse futuro em participar do GNOME justamente por que sei que é um projeto que realmente “faz acontecer” e não se deixa frear por ideologias.

    Ficou grandinho meu comentário, mas acho que expressei a minha opinião (até extremista demais). Obrigado pelo espaço! Abraço!

  4. Só pra ficar claro, chamo de “censura” mudar as diretivas do portal pgo sem acordo prévio e passar a cortar artigos de blog que antes iam direto pro portal. Não chamo de “censura” uma organização se policiar para evitar passar uma mensagem contrária à sua posição oficial, não entrando no mérito da mensagem propriamente dita e nem da forma escolhida para defender essa mensagem, desde que todos os membros conheçam de antemão os princípios e o código de conduta apoiados pela organização, *especialmente* se estiverem incluindo nelas a forma escolhida de resolver quaisquer conflitos.

    Dito isso, concordo com o Leonardo que a desvinculação do projeto GNOME do GNU trará mais mal do que bem. E, acompanhando a thread, ficou claro pra mim que não havia a menor necessidade da conversa chegar a esse ponto a não ser por uma demonstração mais do que explícita — e diria até emocional — de algumas pessoas com o ponto de vista que o Richard Stallman representa. Lembrando que o FSF é apenas um advisory member dos (muitos) membros filiados ao projeto GNOME, a idéia de “alguém” fazendo um ultimato do tipo “faça desse jeito ou você está fora” nunca se materializou. Verifiquem vocês mesmos.

    Aliás, basta ver como uma sub-thread desta “descambou” para acusações sobre piadas mal-compreendidas em uma apresentação que Richard Stallman fez para ver que algumas pessoas infelizmente não conseguem discutir civilizadamente. Cadê o código de conduta?

    Felizmente alguns membros mais pragmáticos e controlados da lista aparentemente estão se fazendo presentes.

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