Mentiras cabeludas sobre a tradução do GNOME

O Damned Lies é uma ferramenta fantástica do Projeto de Tradução do GNOME. Exibe as estatísticas de tradução do GNOME, e possibilita aos tradutores baixar traduções sem precisar lidar com o repositório de Subversion. O nome inusitado é uma referência do autor original a um ditado em inglês: There are lies, damned lies, and statistics!. Em português: Existem as mentiras, as mentiras cabeludas, e as estatísticas!😀

O Damned Lies foi escrito do zero para adequar-se às necessidades dos tradutores do GNOME. Nesse projeto os catálogos de mensagem (arquivos PO com a tradução) só são alterados no repositório quando um tradutor envia uma atualização. Quando o código-fonte tem um acréscimo, retirada ou alteração de mensagem a ser traduzida, o catálogo de mensagens não é alterado automaticamente no repositório, como acontece no KDE. Mas o Damned Lies verifica periodicamente se houve alguma alteração do código-fonte dos módulos do GNOME, e gera automaticamente um catálogo de mensagens atualizado para refletir o estado atual do código-fonte. Por exemplo, se uma nova string tiver sido marcada para tradução, o catálogo do repositório de Subversion vai permanecer como estava, mas o arquivo disponibilizado pelo Damned Lies vai ter uma mensagem sem tradução.

O Damned Lies foi escrito originalmente por Danilo Segan, que também é um dos desenvolvedores da parte de tradução do Launchpad. Mais tarde o aplicativo foi adaptado por Claude Paroz para usar o framework Django, para facilitar a manutenção do banco de dados. O objetivo a médio prazo é integrar o Damned Lies ao Transifex e ao Vertimus, duas ferramentas cujos recursos são complementares aos do Damned Lies.

O Vertimus foi criado pela equipe francesa de tradução do GNOME como um complemento ao Damned Lies. O Vertimus baixa as traduções periodicamente do Damned Lies, e a partir daí permite à equipe de tradução controlar quem está trabalhando no quê. O envio das traduções ao repositório continua sendo responsabilidade dos (poucos) tradutores com conta no servidor de Subversion do GNOME. A equipe brasileira de tradução do GNOME também usa o Vertimus, substituindo com vantagem nossa antiga página de wiki. Stéphane Raimbault, atual mantenedor do Vertimus, está trabalhando na reimplementação do aplicativo em Python, usando o framework TurboGears, o mesmo usado pela versão atual do Transifex.

O Transifex foi criado por Dimitris Glezos, e faz parte da infraestrutura de tradução para o Projeto Fedora. Seu nome vem do latim facere, e quer dizer criador de tradução. Assim como o Damned Lies, ele oferece suporte a múltiplos repositórios remotos, e intermedia a relação dos tradutores com o controle de versão. Mas o Transifex lida com uma variedade maior de controladores de versão, e além de baixar as traduções ele é capaz de enviar as traduções para os repositórios. Como Diego Zacarão disse em entrevista, o código-fonte do Transifex também está sendo adaptado para o Django, embora esse trabalho ainda seja experimental.

A infraestrutura de tradução no Launchpad, antes chamada de Rosetta, é ao mesmo tempo análoga e oposta ao Transifex. Assim como o Transifex, o Launchpad permite aos tradutores baixar e enviar traduções para o código-fonte sem a necessidade de lidar com uma ferramenta de versionamento. Mas o Launchpad exige que o código-fonte seja hospedado no próprio Launchpad, ou seja, não é capaz de lidar com repositórios remotos como no caso do Transifex e do Vertimus. Outra diferença é que o Launchpad permite não apenas o download de catálogos de mensagem, mas também a própria tradução online dos aplicativos. Essa forma de trabalho diminui a barreira para os tradutores novatos, o que combinado à popularidade do Ubuntu faz do Launchpad uma ferramenta bem popular. Em 2008 surgiu uma controvérsia ao redor do Launchpad: a Canonical (empresa por trás do Launchpad e do Ubuntu) passou a exigir dos tradutores que disponibilizassem suas traduções com a licença BSD, para possibilitar o compartilhamento das traduções entre projetos com diferentes licenciamentos. Além disso, o Launchpad nunca chegou a ser lançado como software livre, então não é uma opção para projetos com sua própria hospedagem.

Outra opção é o Pootle, desenvolvido principalmente pela Translate.org.za, a mesma por trás do Virtaal e do translate-toolkit. (Confira também meu artigo sobre o Virtaal.) Assim como o Launchpad, o Pootle tem os recursos de tradução online, gerenciamento de um time de tradução, e envio para repositório de código-fonte. Diferentemente do Launchpad, o Pootle é capaz de traduzir projetos hospedados remotamente, e é software livre. Assim como o Transifex e com o Damned Lies, ele é escrito em Python, está sendo adaptado ao Django, e tem uma origem curiosa para o nome: um seriado de televisão. A lista de projetos de tradução usando o Pootle inclui vários nomes de peso, como a Creative Commons, o OpenOffice.org e o OLPC. Além disso, Debian e Mozilla estão aprimorando o Pootle para atender às suas necessidades, e essas melhorias estão sendo incorporadas ao Pootle “normal”.

4 respostas em “Mentiras cabeludas sobre a tradução do GNOME

  1. Parabéns, um post muito informativo, é praticamente um verbete (projetos de tradução) da Wikipédia.
    Com tantos projetos interessantes, talvez o sensato agora seja integrá-los, como é a proposta do Transifex.

  2. Gostei do artigo, bem claro e objetivo, não deixa dúvidas sobre o estado das ferramentas atualmente.

    O Rosetta, do Launchpad, foi realmente um marco para a tradução colaborativa via interface web, uma pena não ser opensource, o que o acabou deixando estagnado após pouco tempo de estrelato. A fusão entre essas novas ferramentas para o projeto Gnome, porém, parece bastante promissor e uma ótima alternativa nessa área.

  3. Pingback: Translation web apps | Leonardo Fontenelle

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