Entrevista com tradutores do KDE

Em janeiro de 2008 eu tive a oportunidade de entrevistar 4 tradutores brasileiros do KDE, para conhecer e divulgar o funcionamento dessaa equipe brasileira de tradução de software livre. Os entrevistados foram os coordenadores Fernando Boaglio, Diniz Bortolotto e Stephen Killing, e ainda Mauricio Piacentini, tradutor veterano e desenvolvedor do KDE. Foi um bate-papo muito proveitoso, que inclusive inspirou parte das mudanças recentes na tradução do GNOME. Não consegui publicar a entrevista até hoje, por uma série de motivos, mas antes tarde que nunca😉 Desejo a vocês uma boa leitura, e fico na expectativa de que os entrevistados comentem as novidades destes últimos 10 meses!

Como funciona, em linhas gerais, a tradução do KDE?

Boaglio: Existe uma grande divisão dos arquivos para traduzir. Existem os textos presentes dentro dos programas — a gente chama essa parte de “GUI” — e existem os textos que aparecem na ajuda dos programas, quando você vai no menu Ajuda ou pressiona F1 — essas mensagens a gente chama “DOC”. Primeiro eu posso explicar um pouco do nosso processo, depois eu posso falar um pouco de história da nossa equipe =)

Hoje o Stephen está mais responsável pela parte DOC; e o Diniz e eu, pela parte GUI — mais o Diniz que eu. Hoje para ajudar o projeto o voluntário pode fazer o papel de tradutor ou o papel de revisor. O KDE tem diversos pacotes (p. ex. kdebase), assim como o GNOME; nós procuramos deixar pelo menos 1 pessoa responsável por cada pacote. Existem pacotes com mais de um tradutor; nesse caso o responsável pelo pacote é o “coordenador” das traduções. Hoje nós encorajamos o tradutor a ter mais autonomia: nós sugerimos que ele crie uma conta no SVN do KDE.org para baixar e commitar as coisas sozinho. O playground-utils, por exemplo, tem o Diniz como responsável.

Nós forçamos os tradutores a usarem o VP e o KBabel, e temos o tutorial de instalação e configuração no site. Alguns não usam o KBabel, mesmo assim forçamos o uso do VP sempre!

Diniz: O VP (Vocabulário Padrão) está meio desatualizado, né?

Boaglio: Bom, o [Jorge] Godoy fez o novo VP e por enquanto está no site dele. Espero que o quanto antes ele vá para o site oficial. Baseado no VP nós geramos um vp.po que é usado no KBabel para auxiliar nas traduções.

Parece que as traduções são mantidas num módulo à parte, e atualizadas no SVN do KDE por um script quando o código-fonte é alterado. Isso não atrapalha?

Diniz: Eu acho que não. Imagina o desenvolvedor ter que fazer isso na mão! A regra geral é fazer o comando svn update antes de traduzir. Eu faço isso todo dia. [No GNOME, os catálogos de mensagens no repositório de Subversion só são alterados pelos tradutores. Um script atualiza os catálogos automaticamente, mas os disponibiliza em outro lugar.]

E não acontece conflito?

Diniz: Sim! Aí que começa a encrenca! Por isso já combinei com o Boaglio de fazer um pequeno HOWTO para aqueles kolegas que têm mais dificuldade. Eu, como tenho mais prática, faço na mão mesmo, sem problema.

Piacentini: Só acrescentar que o scripty (programa que roda automaticamente) também extrai strings dos arquivos .desktop e outros. Portanto no mesmo esquema de localização a gente “ganha” traduções de componentes extras de cada programa, como os temas gráficos dos games. Isso reduz a necessidade do desenvolvedor se preocupar com isso. [O mesmo acontece no GNOME.]

Não encontrei na documentação do KDE qualquer menção a algo como o string freeze do GNOME. Isso não faz falta?

Piacentini: Nosso equivalente do string freeze é o message freeze. No caso do KDE 4.0, foi em 17 de novembro de 2007. Mais ou menos 30 a 45 dias antes do tagging final, para dar tempo aos tradutores.

Diniz: Existem três working copies: stable, kde3 e kde4. O kde3 e o stable fazem parte de um “mais ou menos” único conjunto do KDE 3.5.8. O stable é a versão atual (3.5.8); assim você pode atualizar seu KDE sem ter que esperar a nova versão. O kde3 é o próximo lançamento do KDE 3, se houver — versão 3.5.9. E o kde4 é para o KDE 4.0.0.

Como assim, “‘mais ou menos’ único conjunto do KDE 3.5.8”?

Diniz: “Mais ou menos único” porque alguns pacotes só existem no stable (p. ex. kdebase, extragear-office), e outros só no kde3 (p. ex. playground-base, extragear-network).

Piacentini: O que acontece é que bem AGORA o estado das coisas está mudando: hoje [8 de janeiro de 2008] por exemplo foi criado o stable/l10n-kde4. O trunk agora é o código (e traduções) que vão formar o KDE 4.1.

Então, se o koffee 3.5.8 (inventado) estiver 80% traduzido, existe uma chance de conseguir sua tradução completa antes do 3.5.9?

Diniz Sim! Essa é a idéia! Não parece boa?

Muito! Como o usuário faz para obter essa atualização?

Diniz: A mehor forma é via SVN, mas depende de certo conhecimento. Ou a equipe responsável pela sua distribuição pode fazer isso.

Boaglio: O Diniz fez um script bem fácil de usar que facilitou bastante a vida de quem não conhece SVN e seus comandos.

Diniz: Pois é, estou devendo uma atualização no script🙂 (Link: primeira versão do script.)

Stephen: você poderia resumir para nós o processo de tradução da documentação do KDE?

Stephen: É o mesmo processo da GUI, pois a documentação também é convertida em arquivos do tipo POT. Simplesmente os “strings” a serem traduzidos são mais compridos.

Por que, então, existem arquivos docbook em português dentro do módulo com as traduções?

Piacentini: Os arquivos docbook são gerados a partir dos docmessages pelo script update_xml. Caso o arquivo no docmessages esteja incompleto o doc não é atualizado. Tendo os POT, pode-se traduzir com o KBabel. [No GNOME, o código-fonte da documentação inclui o docbook original e os catálogos de mensagem; os docbooks traduzidos são criados durante a compilação. Se não a tradução não incluir ilustrações, o docbook traduzido usa as ilustrações originais.]

Então os docbooks traduzidos são gerados dentro do SVN, e não durante a compilação?

Piacentini: Sim, exato, apenas para docs. No caso das messages (GUI), os arquivos .mo são gerados pelo make install. Isso dá à equipe de tradução a opção de apenas atualizar o docbook quando a traduçao está completa. Enquanto isso, continua tendo um docbook válido (o último gerado antes da inclusão de novas strings).

Se o catálogo não estiver todo traduzido, o docbook traduzido fica inválido?

Piacentini: Ele nem chega a ser gerado/updatado. São geradas mensagens de erro para o tradutor. Acho que o Stephen pode falar melhor sobre isso, ele é o expert!

Stephen: De vez em quando você encontra programas com certos itens no menu sem descrição na ajuda, quando o doc não foi atualizado. Nunca vi mensagem de erro na leitura de documentação.

O que uma pessoa precisa fazer para começar a colaborar com o projeto brasileiro de tradução do KDE?

Boaglio: A pessoa precisa (1) ler o tutorial do site; (2) se inscrever na lista; (3) escolher em qual pacote deseja ajudar; (4) se for o caso pedir para o admin (do kde.org) para criar sua conta no SVN; e (5) traduzir e commitar as coisas, sempre que possível avisando na lista o que está fazendo.

Como é a política de atribuição de contas de Subversion aos tradutores brasileiros?

Diniz: A maioria dos Kolegas tem acesso no SVN. Começa por esse documento, depois o sysadm entra em contato com os adms do kde-pt_BR para saber se a pessoa que pediu acesso faz parte da equipe. Alguém que queira traduzir um pacote/arquivo sem ter acesso de “commit” no SVN pode fazer apenas um svn checkout no nosso “svn anônimo” e depois enviar para alguém com acesso de commit, normalmente via e-mail mesmo.

Como funciona a revisão das traduções?

Diniz: Não tem um processo formal definido. A regra geral é: achou algo errado? Tem acesso de commit? Vai lá e corrige. Não tem acesso? Abre um relatório no bugs.kde.org ou entre em contato com os adms do projeto.

Além do Kbabel, que outras ferramentas os tradutores do KDE usam?

Diniz: O KBabel é nossa ferramenta básica. É muito prático e eficiente!

Stephen: Realmente o KBabel funciona e facilita o processo.

Boaglio: Alguns usam o poEdit, mas poucos.

Diniz: Ah, é mesmo… Eu já testei. Mas não se compara ao Kbabel.🙂

Quando, e como, vocês começaram a participar da tradução do KDE?

Boaglio: Vou passar a versão resumida senão vamos passar a madrugada😀

Usando o KDE2 achei alguns erros de português e resolvi ajudar o projeto. Eu participava havia alguns anos do LDP-BR, e tinha criado um howto (Oracle-Howto-br). Não sei o GNOME, mas o KDE estava na mão do pessoal da Conectiva [Atualmente parte da Mandriva], de uma pessoa chamada Tacão. Mandei e-mail e nada… Depois de reclamar para a lista LDP-BR eu descobri pelo Godoy (que ainda estava na Conectiva) que esse cara tinha saído. Ele foi embora e abandonou o projeto junto! Eu queria ajudar e quis assumir a coisa; felizmente (e bota felizmente nisso) a Lisiane (que ainda ajuda nas traduções) assumiu comigo e me ajudou bastante.

No começo era só ela que tinha acesso ao CVS, ela controlava tudo num arquivo txt e mandava os arquivos para as pessoas traduzirem. Esse processo funciona muito bem, mas deixa o admin ferrado para commitar e atualizar toda hora, por isso apostamos nesse esquema de cada um com sua conta. Depois disso infelizmente a Lisiane saiu da administração e fiquei um tempo sozinho; aí chamei o Stephen pra ajudar na parte de Doc. Em paralelo temos uma lista kde-i18n que os tradutores do mundo trocam informações; nessa lista aí (e na nossa também) eu vi que o Diniz tava participando pra caramba — digamos, muito mais que eu… — aí eu percebi que o projeto precisava dele como administrador =) Felizmente ele aceitou!

Eu fiz um sisteminha em PHP/MySQL para controlar os tradutores e pacotes, que não deu certo. Depois de um tempo eu fiz uma versão mais simples dele e coloquei no site lá. O novo projeto agora é migrar tudo de lá para o wiki do kde.org.br. [No site atual] a manutenção é toda php/mysql na unha, o que não é nada prático.

Diniz: O codigolivre é parceiro, mas às vezes fica off-line😦

Lá em 2006 eu pensei: bem que eu podia fazer alguma coisa pela comunidade do software livre, mas programação não é muito minha praia. Aí resolvi ajudar na tradução do KDE. Mandei a mensagem em 17 de fevereiro de 2006. Está guardada😉 Entrei em contato com o Boaglio e fui aprendendo… Primeiro peguei uns pacotes pequenos e ainda não traduzidos. Depois de um tempo, quando eu já tava mais craque, peguei mais pacotes e em 17-01-2007 o Boaglio me convidou para ajudar como admin. Hoje acho que posso dizer que tenho um bom conhecimento da estrutura do projeto e das ferramentas. O próximo passo é melhorar a parte, digamos, de divulgação e organização do projeto. Isso exige habilidades mais administrativas mesmo, do que técnicas.

Stephen: Mais ou menos em 2003, quando ainda era KDE 2.x. Mas nem lembro como comecei a participar! Eu também não sou muito programador e tive a mesma idéia o Diniz. Fora que havia umas traduções muito ao pé da letra, que em português não faziam sentido.

Eu era uma das pessoas que enviava traduções em txt para a Lisiane; não tinha paciência com o KBabel na época. Marcus Gama era o coordenador dos DOCS, mas ele foi para o Sudão (ele é militar). Ele pediu para alguém cobrir para ele, mas a Lisiane já tinha bastante trabalho, então eu assumi.

Qual foi o papel da Conectiva na localização de software livre para o português do Brasil?

Boaglio: Ela forneceu infraestrutura necessária, e até hoje os servidores estão lá. Claro que sabemos que ela teve interesse na tradução, mas ela disponibilizou o projeto para quem quisesse ajudar.

Diniz: Conectiva! O primeiro Linux a gente nunca esquece.🙂

Stephen: Usei o Conectiva 7 primeiro, muito bom comparado com as outras distros da época.

Boaglio: Eu acho q na época a Conectiva e o LDP-BR era parecido com o que é o Sun Microsystems e o Java. Era livre para qualquer um entrar mas sempre na coordernação estavam pessoas da Conectiva. Toda a estrutura ainda é lá, qualquer alteração no site deveria ser feita por pessoas da Conectiva.

Quando você fala que a Conectiva controlava o LDP, voê está se referindo à tradução para o pt_BR, certo?

Boaglio: E a do KDE, do HowTo e das man pages.

Por que a “zona franca” entre as equipes é uma lista chamada ldp-br?

Boaglio: Porque dela vêm os padrões, o Vocabulário Padrão entre outras coisas. No site do LDP tem um FAQ que eu fiz que explica melhor.

Diniz: Criado em 26/06/2002 ? Tu tá velho hein?🙂

Boaglio: Jurassic Boaglio!

O que vocês acham que poderia melhorar no processo de localização de software livre?

Boaglio: No geral ou no KDE?

Ambos🙂 E tanto no Brasil quanto a nível internacional.

Boaglio: No KDE temos um certo índice alto de desistências, acho q temos que melhorar o processo, talvez uma mistura do que era antes e do que é hoje. Para melhorar eu tenho algumas sugestões:

  • Migraçao do site do br.tldp.org para um wiki q possamos alterar; criação de tutoriais de uso do kbabel e dos scripts;
  • Adoção do VP por todos os projetos, pelo site opter uma lista das possíveis traduções, possibilidade de editar/adicionar novos termos;
  • Um esquema global de “suporte” ao usuário final: uma interface web através da qual qualquer usuário de KDE, GNOME, Firefox, BrOffice.org pudesse informar uma tradução errada e isso chegar na equipe de tradução responsável. Seria tipo um “canal aberto” ou “help-desk” =)

Acho que é só isso.🙂

Diniz: Existe muita coisa que a gente pode fazer, mas que ainda não está bem clara/decidida🙂 Não só no KDE, mas nos outros projetos também.

Sim, faz parte! Acho fácil aproximar as equipes do KDE e do GNOME. Não tenho tanta certeza quanto às do BrOffice.org e do br.mozdev.org.

Diniz: Talvez um ponto de convergênia seja realmente o VP. Não acha?

Sim. O GNOME tinha um equivalente próprio, parecido mas não 100% concordante, mas estamos caminhando cada vez mais na direção do VP. Eu fico pensando se não valeria a pena ter uma lista de discussão única, ou seja, os projetos todos usarem um substituto do ldp-br@ no lugar das listas de cada projeto específico. Só não poderia ter e-mails automáticos tipo TP-robot ou debian!

Diniz: O nível de discussão iria subir bastante, mas a complexidade de administrar também.🙂 Imagina, fulano diz — No gnome é assim —, beltrano responde — Mas o kde é assado.🙂

A lista do xorg tem tudo quanto é assunto e é tranqüila🙂 Dá para discutir vários assuntos na mesma lista.

Boaglio: Acho que assuntos internos do tipo “fulano vai traduzir o kde-multimedia” não fazem sentido numa lista LDP-BR, pra isso usam-se as listas internas.

Talvez se a lista fosse a mesma, algumas discussões seriam mais interessantes. Por exemplo, estamos discutindo a tradução de “match” (correspondência, coincidência, resultado, ocorrência etc) na lista do GNOME. Se quisermos adotar um padrão diferente de “correspondência” (VP) vamos ter que mudar a discussão de lista.

Boaglio: Ah, esqueci de um item lá para melhorar a tradução: abandono da lista e criação de um fórum.

Fórum?

Boaglio: Lista de e-mail era interessante quando eu usava e-mail em 1994 =) Cria um fórum para o VP, outro para outras discussões, etc., tudo fica online, fácil de usar, de consultar, etc.

A interface web das listas convencionais realmente deixa a desejar. Talvez o google groups (exemplo), que tem um pouco de cada?

Diniz: É, mas no fim desemboca em e-mail mesmo.🙂

Boaglio: E acaba gerando aqueles mesmos e-mails com as mesmas perguntas, porque o pessoal não sabe onde consultar.

Diniz: Nesse ponto o wiki é melhor. Bastar ter o link dos tutoriais e manter atualizado.

Para encerrar: como vai a tradução do KDE 4.0 para o português do Brasil?

Boaglio: Diniz, é contigo!

Diniz: No último ano, começou o desenvolvimento e a tradução do kde4. Neste ponto eu já tinha assumido a responsabilidade pelos principais pacotes do kde (kdebase e kdelibs). Um problema que eu percebi, e o Boaglio já comentou, é que os tradutores diminuiram o nível de trabalho (commits) e ficou meio pesado ajudar com os outros pacotes. No entanto, como o kde4 foi uma evolução do kde3, foram aproveitadas muitas traduções já existentes. Com a colaboração dos Kolegas, chegamos no dia do tagging com 85% da interface gráfica traduzida, sendo que os 15% que faltaram foram mais nos pacotes que chamamos de extragear e playground, ou seja, não fazem parte dos essenciais (kdebase, kdelibs, kde-pim, kde$$$). Então, acho que levando em conta as dificuldades e o tempo disponível para tradução, fizemos um bom trabalho.

Nossa, atualizar tudo isso para um lançamento deve se duro mesmo! No gnome contamos como “100%” só aqueles com ciclo semestral. Pessoal, muito obrigado pela disposição; assim que eu melhorar da tendinite publico a entrevista. E feliz KDE 4!

Os trechos entre colchetes são esclarecimentos meus, e não respostas dos entrevistados. Reparem que dois entrevistados não puderam permanecer até o fim da conversa.

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