A propósito do acordo ortográfico da língua portuguesa

Hoje pela manhã Flávio Atanásio Chongola (currículo) me enviou um poema sobre o acordo ortográfico da língua portuguesa. Inicialmente o texto foi acrescentado como um comentário a uma notícia sobre o estado do acordo em março de 2008, mas agora recebe o destaque que lhe é devido:

A certo fio da memória
Lembramo-nos da época em que tudo era simples
Era uma época radiosa
Ténue e abrilhantada
Em que todos exprimíamos os nossos próprios sentimentos a nossa própria maneira
A nossa língua era um gesto
Um gesto simples para todos compreensível.

Depois veio o tempo
Depois veio a tal evolução que tudo atrofia
Começamos a gaguejar
E com o tempo codificamos signos para que nos vissem como os outros homens
Foi uma forca estranha que nos libertou daquela época
As nossas formas de vestir e de sentar
As nossas formas de contar o tempo pelos ciclos de chuva e pelo número de Invernos
Tudo se arrastou já para essa idade que a memória registou.
E, de quando em vez, tão nítido nos vem pelo fio da memória.
Embalados num sonho de ternura e merecida glória
Sempre regressamos ao tempo que nos deu origem
Às formas sublimes que mostram quem somos
E as forças estranhas que quebraram nossas raízes,
Rejeitamos!…

Não é a paisagem que nos prende nesse tempo
mas o eterno desalento que nos rói!
Assim é com a língua!…
Nós, os seres diminutos da civilização humana,
seguimos como ratos o fumo da glória,
Tementes ao atraso secular com que tanto nos batem
Substituimos a nossa identidade para correr
Atrás do progresso…

Agora vos digo todos fascinados por esse universo,
Agora vos digo todos que sao fascinados e nos pregam essa linha para o progresso:

Não é o exílio que transforma um homem numa pedra
Não é a língua que prende uma pátria
Mas as vísceras que transformam qualquer cinza na mais plena vitoria,
Os ratos que são políticos e transportam o estandarte de qualquer pátria,
A nossa convicção e as coisas que criamos.
O que coloniza afinal é o santo que nos pregam
Essa crença de que o deus que é dos outros também é nosso deus
Essa crença de que no fundo nossa civilização é um momento retardado
A caminho do que eles já conquistaram,
Essa crença…

Não são os sinais que nos prendem a qualquer tempo e a qualquer raça,
São as magoas que trazemos ancoradas e as farsas que nos foram ensinadas
São os males, as hesitações, são tumores de cobardia que nos prendem.
Porque afinal os sinais nada significam
Nem o deus que nos pregam é tão supremo quanto nos pregam!

A língua é livre!
A língua é solta como uma ave que não tem que seguir outros caminhos senão os que a natureza lhe mostra,
A língua é um código-genético com que os povos transportam sua identidade,
Suas origens suspeitas,
Seus hábitos de garça, de gazela, de hipopótamo,
Suas formas místicas de ser ou seus hábitos puramente homogéneos.
A língua é solta!…

A língua não é uma armada nem um batalhão de guerra
A língua não é um escudo que a comunidade precisa para enfrentar a globalização
Não é uma muleta nem é amuleto de unidade.
Porque os sinais nada significam
E o que mesmo importa é a linguagem,
São as vozes e são os hábitos dos homens que respiram

Obrigado, Flávio!

2 respostas em “A propósito do acordo ortográfico da língua portuguesa

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