Como traduzo (ou melhor, reviso)

Quem trabalha comigo sabe que mais reviso traduções que as faço. Eu até preferia estar traduzindo, mas é importante para a motivação dos outros tradutores que sua obra receba a devida atenção, ou seja, que suas traduções sejam revisadas e enviadas assim que possível. Esse artigo descreve minha rotina como membro da equipe brasileira de tradução do GNOME.

Quando a tradução está pronta, o tradutor cria um relatório de erro no bugzilla do GNOME e anexa a tradução. Em geral, o arquivo é compactado com gzip, e é marcado como um patch. Não que seja um patch, mas marcá-lo como tal permite que eu marque mais tarde a tradução como enviada. Uma vez eu até apareci nas estatísticas do bugzilla do GNOME como um dos maiores revisores de patches da semana.

Configurei o JHBuild para baixar os módulos (programa, biblioteca etc.) do GNOME (no caso, 2.20) em um determinado diretório (~/linux/svn/gnome-2-20). Além de ser capaz de compilar o GNOME num diretório à parte (~/linux/opt/gnome-2-20), o JHBuild automatiza atualizações em lote do código-fonte; para atualizar um só módulo eu prefiro usar diretamente o comando svn. Cada módulo tem seu diretório, e os módulos traduzíveis têm dentro um diretório po, contendo um catálogo de mensagem para cada local (por exemplo, pt_BR.po) assim como um arquivo ChangeLog e um LINGUAS. Quando a equipe traduz um módulo pela primeira vez, precisamos acrescentar o código do locale (por exemplo, pt_BR) ao arquivo LINGUAS.

Quando baixo uma tradução do bugzilla, salvo como pt_BR.po.gz no diretório po adequado. Abro então o terminal para acessar o diretório e descompacto a tradução (gzip -fd pt_BR.po), sobrescrevendo o catálogo de mensagens antigo (pt_BR.po) no meu disco rígido. Em seguida, atualizo o código-fonte (svn update ..) e atualizo em sua função o catálogo de mensagens (intltool-update pt_BR). Convenientemente, o último comando também me informa se falta traduzir alguma mensagem. O arquivo que os tradutores baixam do site de estatísticas de tradução do GNOME já passou por esse processo; eu o repito apenas para pegar quaisquer alterações que o código-fonte possa ter sofrido após o tradutor baixar o catálogo.

Para revisar as traduções eu uso o Gvim. Ele pode não ser fácil de aprender ou mesmo bonito, mas é muito ágil para pesquisas e substituições. Além disso, eu ainda não aprendi a usar o Emacs🙂 Ao invés de ler todas as traduções, eu me concentro nas alterações do tradutor. Para isso, executo svn diff | less, e navego entre as mensagens alteradas com /^+[^#] (obrigado, Aurélio). Quando preciso fazer alterações, uso uma nota do Tomboy separada em alterações feitas e por fazer. Faço as alterações pontuais logo, mas deixo as alterações em lote (por exemplo, corrigir várias vezes mini-aplicativo para miniaplicativo) para depois. Ao final do processo, informo o tradutor sobre as alterações realizadas.

Às vezes tenho dúvida quanto a uma tradução, e aí o importante é ter o telefone de quem sabe. Costumo revisar traduções sempre com o IRC aberto, pois assim eu e outros tradutores ajudamos uns aos outros sem esperar muito pela resposta. Quando precisamos ampliar a discussão (porque estamos repensando um padrão ou o desconhecemos), enviamos a questão à lista de discussão do GNOME, se a questão for restrita a esse projeto, ou à lista de discussão do LDP-BR, se a questão envolver outras equipes brasileiras de tradução. Outras vezes, em vez de perguntar a outras pessoas, eu preciso conferir o contexto em que uma mensagem aparece. Para descobrir isso vale de tudo: espiar no código-fonte, abrir arquivos glade com o programa adequado, compilar o programa para procurar na interface, ou mesmo pesquisar na internet. Mas, como Andre Kappler disse, quando uma mensagem original está difícil de entender, o correto é abrir um relatório de erro para os desenvolvedores facilitarem nossa vida, seguindo o tutorial de internacionalização do GNOME.

Depois de revisar as alterações feitas pelo tradutor, confiro o arquivo inteiro com o translate-toolkit, mais especificamente o comando pofilter --gnome pt_BR.po | less. Essa ferramenta freqüentemente aponta erros para os quais eu e o tradutor não tenhamos atentado, mas a maioria dos “erros” encontrados estão de fato corretos. Por fim, verifico a ortografia das traduções com no Vim. Alterei o destaque de sintaxe de catálogos de mensagem para só verificar a ortografia das mensagens traduzidas, o que aumentou muito a utilidade do recurso. Estou aprimorando essa modificação que mencionei, e em breve devo publicá-la.

Antes de enviar as traduções, preciso descrevê-las no arquivo ChangeLog. Começo usando o script prepare-ChangeLog.pl para garantir que o formato rígido do arquivo seja seguido, e então acrescento com o Vim algo como Brazilian Portuguese translation updated by Fulano de Tal <fulano@e-mail.com>. No terminal, executo head -n 15 pt_BR.po ou sed /^[^#]/q pt_BR.po, para selecionar nome e e-mail do tradutor e inseri-los no ChangeLog. Após salvar o ChangeLog, seleciono as linhas que acrescentei e executo no terminal svn commit. Configurei meu $EDITOR para ser /usr/bin/gvim --nofork quando estou no X, então o comando svn commit faz aparecer uma janela do Vim, onde descrevo as alterações enviadas aproveitando o texto do ChangeLog. Enquanto meu cliente de Subversion envia a tradução para o servidor, volto ao relatório de erro (cuja página estava aberta o tempo todo). Marco o arquivo da tradução como enviado, marco o relatório como fechado/resolvido, e digito alguma mensagem como Committed, thanks!

Para evitar a fadiga, guardei algumas seqüências de comandos no ~/.bashrc:

alias meuPo="gzip -df pt_BR.po.gz && 
	svn update .. && intltool-update pt_BR && 
	gvim pt_BR.po && 
	svn diff pt_BR.po | less && 
	pofilter --gnome pt_BR.po | less"

alias meuChangeLog="prepare-ChangeLog.pl && 
	sed /^[^#]/q pt_BR.po && 
	gvim ChangeLog"

E você, como é sua rotina de tradução?

Obrigado a Vladimir Melo pelas correções e sugestões.

4 respostas em “Como traduzo (ou melhor, reviso)

  1. Leonardo,

    Achei muito interessante o artigo, me pareceu bastante trabalhosa a rotina, cheia de procedimentos de verificação, entendo bem a necessidade de tornar tudo isso o mais eficiente possível. Gostei a sensação que o artigo passou de que as traduções no GNOME tem uma série de ferramentas de filtragem e são muito seguras. Foi uma atitude bastante generosa porque deve servir muito bem aos outros revisores do GNOME. Recomendo que boa parte disso se converta em wiki (o que ainda não está lá evidentemente). Parabéns!

  2. Belo post rapaz!!

    Apoio a recomendação do Vladimir a respeito do wiki, post maravilhoso para tornar-lo orgânico. Também fico feliz pelo trabalho que a equipe de tradução do gnome vem realizando e o seu trabalho, leonardof, é sem dúvida a fonte de inspiração para diversas tradutores/revisores iniciantes ou não espalhados pelo globo. Deixo a sugestão para um novo post sobre o GVim: “Conhecendo a Caixa Preta chamada GVim” …😉

    Abraço camarada,
    raulpereira.

  3. Pingback: Andre Noel » Blog Archive » Aberta a temporada de caça a tradutores!

  4. Pingback: Natyvw Design Aberta a temporada de caça a tradutores! «

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s